Sem título, 2008
Óleo sobre linho
118x93 cm (pormenor)
A Pintura como interacção entre a mente e o corpo
O trabalho que a artista Olga Alves tem vindo a desenvolver tem-se afastado das tendências actuais da arte, dominadas pelo artista programador, ou artista historiador/repórter que investiga o passado, planeia a obra e se distancia da sua execução. Nas obras que produz, privilegia a proximidade física e táctil com o suporte, confia na acção do corpo e da mão e nos instrumentos que mais frequentemente utiliza como os fiéis transmissores da intuição, dos pensamentos e dos sentimentos sobre a tela. Neste domínio, não lhe interessa o carácter puramente artesanal da reprodução acrítica de imagens, fotografias ou modelos, mas a interacção entre a mente e o corpo, a obra única como receptáculo das variações do estado de alma, do humor e da sensibilidade.
As obras que Olga Alves tem vindo a produzir podem dividir-se fundamentalmente em dois grupos: no primeiro o espaço da tela é subdividido em segmentos horizontais ou verticais, por vezes com orientações contrárias, onde são legíveis ritmos, contrastes mais ou menos evidentes e entidades cromáticas de fundo/sobre - fundo que criam uma unidade que tende a assimilar as variações da luminosidade ambiente e do contexto; o segundo grupo de obras é formado por uma série de trabalhos que têm uma orientação dominante, geralmente vertical, com contrastes de cor mais subtis que numa observação afastada tendem para o monocromatismo. Numa leitura mais próxima destas obras identificam-se inumeráveis filamentos, com maior ou menor espessura, gerados por diversas camadas de tinta sobreposta que preenchem toda a superfície da tela, e que se encontram dispostos num paralelismo não autoritário que aceita pequenos desvios e irregularidades. Aqui o fundo pode surgir em primeiro plano, quando a tinta aplicada assume um carácter corpóreo e o sobre - fundo pode preencher os espaços mais próximos da superfície da tela - com menor revelo - ou ocupar parcialmente os filamentos de massa mais avançados na direcção do observador. Neste último grupo, as obras são mais topográficas, no sentido da acentuação dos relevos e das depressões da superfície e por isso as texturas são mais ricas.
Em ambos os casos a cor é o factor impulsionador, surgindo de um processo de múltiplas associações que contraria a aplicação directa das tintas a óleo disponíveis no mercado sobre o plano da tela. A afinação da cor utilizada resulta de um processo continuado de experimentação que tende para a aceitação das cores existentes na Natureza que lhe está próxima e a rejeição das cores fortemente contrastantes utilizadas na publicidade e nas embalagens de produtos comerciais que induzem os indivíduos a uma alegria efémera e ao consumo.
As suas obras animam-se a partir de um processo de justaposição/remoção de pigmentos que revela etapas anteriores e convergem para o momento temporal de fixação da estabilidade da obra. Esta estabilidade não corresponde só ao momento definitivo da obra, mas também anuncia que esta se encontra preparada para a interacção com o contexto e com o público.
Arq. Francisco Portugal e Gomes
